Cara a cara com o temível e assustador “Terrible Twos”

Estava eu refletindo de como é lindo poder acompanhar o desenvolvimento do meu filho tão de perto, hoje ele é um menininho de 20 meses, muitas mudanças ocorreram nesses meses, aquela coisinha pequenininha que mal tinha controle das próprias mãos, o tempo foi passando e ele foi controlando mais o próprio corpo e de repente ele já conseguiu rolar, em seguida veio o segura a cabeça, opa que a visão do mundo já fica mais interessante. Mais algumas semanas já é possível ficar sentado e em seguida começou a engatinhar, o que é uma grande conquista ele já consegue alcançar algumas coisas que antes ficava só na curiosidade, epa, perae agora ele engatinha e consegue agarrar as coisas, agarra com toda força e leva na boca tudo que encontra, brinquedos, sapatos, tapetes, rabo do gato e por ai vai. O mundo agora também tem sabores, e que deliciosa que são essas descobertas. O que já parece muito interessante fica ainda melhor quando aperfeiçoando essa habilidade de agarrar ele se sustenta nos móveis e já fica em pé, dai para a grande conquista de trocar os primeiros passos não demora muito, e a gente baba, a gente vibra, e é para ser comemorado mesmo, conseguir ficar em pé e andar para alguém que há poucos meses atrás não era capaz nem de segurar o pescoço é um conquista incrível. Agora em pé e andando é possível enxergar o mundo de outro ângulo, todos os estímulos são absorvidos de maneira absurdamente rápida, e ai pronto as primeiras palavras começam a ser pronunciadas.

Esse bebê agora é um individuo, uma pessoa, um ser. Não que eu tenha descoberto isso só agora que ele anda e fala, sempre soube, mas esse foi por um tempo uma extensão da minha pessoa… O tempo passou e hoje eu descubro junto com ele suas particularidades, gostos e preferências que fazem dele um ser único, como eu sou como você é. Testemunho diariamente suas descobertas como um mini humano, uma pessoa em formação, uma pessoa se inventando e descobrindo o mundo. Esse bebê hoje é uma criança e tudo que ele já era, que foi criando, foi acrescentando, muito de mim, muito do pai, muito do meio e virou ainda mais ele.

E pronto, essa criança descobriu que ele existe. Se em algum momento te passou pela cabeça que esse bebê que ali estava, era totalmente disponível para que fosse moldado ao seu gosto é agora que você vai entender que não.

Essa primeira parte desse texto eu havia escrito na noite de ontem, quando eu desfrutava do meu momento comigo mesma, sentadinha aqui na paz da minha cama com a casa toda em silêncio. Eu estava como faço todas as noites refletindo sobre o dia, olhando esse lado romântico dessa fase de quase dois anos, é uma fase muito gostosa, eles ficam muito engraçados, interagem com a gente o tempo todo, a maneira como imitam o nosso comportamento, o jeitinho que eles dançam, a alegria dele em conseguir pular, as caras e bocas. Se você está nessa fase tenho certeza que você sabe do que eu estou falando. Eles se tornam cada dia mais encantados com cada nova descoberta e observar o olhar de encantamento deles pela vida é algo que me faz sentir revigorada. É lindo, é maravilhoso mas não é só isso.

Lembra que essa criança se descobriu enquanto sujeito que é? Agora ela começa perceber que ela quer algo, mas que o mundo nem sempre pode atender esse seu querer. Está formada a frustração. Se segure, por que é agora que o barato fica louco (como dizem os jovens).

Eu não gosto muito de rótulos e esse termo “terrible twos” eu nunca simpatizei muito, não acredito que traga nada de positivo estigmatizar uma criança de terrível só por estar chegando perto dos dois aninhos. Não acho justo usar termos pejorativos com uma crianças que não tem nem maturidade cerebral para saber lidar com frustrações.

Mas perae que eu também sou humana, pelo amor de Deus que fase é essa?

Até então tínhamos os nossos dias difíceis, mas estávamos levando, mas eis que em um certo momento alguém ligou uma chavinha dentro do meu filho e ele se transformou.

Vou tentar ser breve e dividir com vocês no que se transformou uma simples ida ao supermercado. Por volta de 09:30 da manhã decidi que iriamos ao mercado, já escolho um horário estratégico que ele não esteja cansado e nem com fome, ok. Meu lindo Luca todo animadinho já corre para a porta de casa me chamando “Mama brrrumm Bibi” Sim, filho nós vamos de carro. Abro a porta alguns vizinhos limpando o que jardim nessa manhã fria de começo de primavera em NY, meu Luca sorridente falando “Hi” para todo mundo.”Sempre tão simpático, fofura da mamãe“.

Caminhamos alguns metros até o nosso carro, ele já anda de mãos dadas e dessa vez nem tentou tocar o resto de neve que ainda resta no jardim. Chegada a hora de senta-lo na cadeira dele, quem disse que ele quer? Já começa a chorar e gritar “Não, não, não” Inclina o corpo com uma força absurda, no maior estilo exorcista, juro que eu chego a pensar que a cadeira em algum momento deu choque ou beliscou ele, sério mesmo. Não contava com isso, não que seja a primeira vez que ele tenha se recusado a se sentar na cadeira, mas geralmente acontece quando ele está cansado, com sono ou quando estamos no parque e ele não quer voltar para casa, assim para sair de casa foi a primeira vez e a mais intensa também. E escândalo com platéia é sempre mais emocionante, não é mesmo? Pois bem, eu venci quando ofereci á ele uma lanterninha que estava dentro da minha bolsa,(sempre tenho alguma coisa na bolsa para serem usados em casos como esse, algumas vezes da certo, outras não), pronto ele distraiu e fomos nós dois felizes e cantantes ao supermercado latino que tem aqui perto, costumo ir até lá quando me da saudades de algumas comidinhas do Brasil.

Meu lindo Luca que agora se descobriu cheio de vontades e quereres não aceita mais ficar sentado no acento destinado a crianças do carrinho do supermercado, por isso eu coloco ele dentro da cesta do carrinho de compras, e ali ele fica examinando tudo que eu coloco lá dentro, acabo que eu uso o acento de criança para coisas que podem machucá-lo ou quebrar como ovos e vidros. Vez ou outra ele joga no chão o que eu coloco na sexta, mas como eu não o levo para compras grande, só para comprar algo rapidinho não demoro muito o stress é menor.

Nas compras de hoje estava um saco de trigo para quibe, em 2 segundos que eu me distrai lendo um rótulo percebo que ele rasgou o saco e esta despejando todo o trigo no chão, como se não bastasse o ato ele ainda comemorou “Eeeee” retiro o que sobrou da mão dele e explico que não pode fazer isso. É claro que ele chorou e se jogou dentro do carrinho fazendo toda aquela cena, eu sempre falo que ele pode manisfestar a frustração dele, mas que isso não muda a decisão da mamãe. Se tinha gente olhando? claro, mas eu faço a louca e me fecho dentro de uma bolha e faço de conta que não tem ninguém. Me desculpei com o rapaz que estava limpando o mercado. Poxa que vergonha…  E fomos para a fila do caixa, ele já estava parando de chorar, eu sentia o meu rosto queimar de nervoso, mas respirava fundo e vida que segue. Não acho que meu filho seja diferente de nenhuma criança da idade dele, aliás, quem aqui sabe lidar bem com um querer frustrado? Mesmo nós adultos, no auge da nossa sabedoria frente as frustrações, contrariedades e nãos que recebemos da vida muitas vezes choramos, alguns batem e quebram. Isso porque estamos nessa há muito mais tempo que nossos pequenos. Então, o que dizer desses pequenos que acabam de chegar nesse mundão? Por que esperamos deles algo que nem nós mesmos somos capazes de fazer, na maioria das vezes em que somos contrariados nessa vida?

Uma criança de dois anos ou quase dois anos (como é o caso do meu), eles não tem maturidade cerebral para lidar com a frustração. Eles não sabem como agir. Ou melhor, ele sabe reagir com os únicos recursos que ele possui até o momento que é chorar, gritar e bater. Por mais que a gente fique nervosa, porque fica, e muito. Eles não estão fazendo por maldade, não é manhã, não malcriação, é apenas um ser humano em desenvolvimento reagindo com os pouquíssimos recursos que ele possui.

Logo ele se distraiu com o saco de biscoitos de polvilho, fomos para o carro ele sentou tranquilamente na cadeirinha, eu fiquei um tempo parada ali no estacionamento comendo biscoito de polvilho com ele, esperando a adrenalina baixar para dirigir de volta para casa.

Continuo achando que rotular não é bacana, mas eu confesso que quem inventou esse termo está de parabéns, muito bem aplicado, e hoje depois de ter passado por isso eu ainda acrescentaria aos “terribles twos” o assustador, pavoroso, aterrorizante, assombroso e amedrontador dois anos”, e eu tive uma vontade louca de sair correndo daquele mercado.

Queria eu ter descobrir uma receita infalível para lidar com as crianças nessa fase, mas eu não tenho e ninguém tem, simplesmente por que não existe. Mas tem algumas coisas que eu acho que ajudam sim.

Respirar, uma respiração profunda e se possível de olhos fechados (evite fechar os olhos se houver risco de fuga do pequeno).

Se for em público faça como eu, utilize a técnica da louca, se feche dentro de uma bolha só você e seu filho, não se importe com desconhecidos que não estão nem ai para vocês, você não precisa tratar o seu filho assim ou assado para provar para ninguém que você é uma boa mãe. Independente do que você faça sempre vai ter alguém para te julgar. Então aja como se estivesse só vocês dois.

Mesmo em meio ao caos lembre-se que é apenas uma criança, tentando reagir a uma situação desconfortável do jeito que ela sabe, e tudo o que ela quer é que você possa entender, ela usa dos seus poucos recursos, mesmo que sejam inapropriados eles serão aprimorados, lembra que essa mesma pessoinha ai na sua frente a poucos meses não era capaz nem de segurar a própria cabeça.

E acredite não é contra você, se ela faz tudo isso a sua frente, é que ela confia que você seja capaz de entendê-la. A gente não abre as nossas fraquezas para qualquer um, não é mesmo?

Mas a gente é humano e passiveis de erro, e quando todas as alternativas se frustrarem e a gente acabar explodindo, sim porque isso vai acontecer comigo, com você e com todas as mães do mundo por mais equilibrada que seja. O único caminho é reconhecer para os nossos filhos e para nós mesmo que falhamos e nos desculparmos. seja sempre sincera fale de suas fraquezas e tente fazer diferente em uma próxima vez.

Quando eles menos merecem é quando eles mais precisam do nosso amor, se o choro ainda dói um colo com bastante acalento em silêncio onde só se ouve os suspiros é sempre um aliado, tudo se acalma o choro passa e as energias são renovadas para logo mais recomeçar tudo novamente. A maternidade é assim cheia de desafios, com novas dificuldades a cada dia e algumas explosões no meio do caminho. Mas o desejo de uma criação com base no respeito é reafirmada a cada dia, onde meu pequeno se sentira sempre acolhido e amado, confiando em mim e mais do que isso, ele terá confiança em si, para seguir sendo, existindo e se encontrando.

Mãe de Hoje