O que o seu filho aprende quando você grita com ele.

O que somos hoje é resultado das nossas experiências, da nossa vivência, da nossa história, da nossa infância e principalmente da nossa primeira infância. Boa parte do que temos a oferecer ao mundo hoje foi plantado lá atrás, no nosso começo, onde fomos construídos do que recebemos e de como fomos recebidos. Então, quer dizer que dependendo da situação recebemos uma condenação desde o inicio? Quer dizer que uma experiência ruim compromete toda uma vida? Felizmente não. Porque nós não somos formados de apenas uma experiência, mas que esse começo de vida conta muito para vida toda, isso conta.

Não sou o perfil de mãe que me baseio apenas em conceitos, técnicas, livros ou orientação de determinado profissional. A minha principal “ferramenta” na criação do meu filho é o que eu sou hoje, e toda a bagagem que eu trago comigo. Eu escolhi a criação com apego, que nada mais é do que você educar o seu filho de forma respeitosa.

Diariamente eu enfrento o desafio de oferecer ao meu filho aquilo que eu não tive, não estou falando do material, me refiro a criação. A minha intenção não é fazer desse texto um relado de uma infância infeliz e violenta, tiveram casos de infâncias muito mais violentas que a que eu tive. Mas eu levei sim algumas boas surras, e vivenciei muita violência de maneira verbal, o que na época e no meio em que eu fui criada, era até comum de se ouvir, tanto que muita coisa eu só fui descobrir que tratava-se de violência anos mais tarde. Pois bem, para o meu ser foi tão comum que foram necessárias muitas sessões de psicanálise, para essa criatura que vos escreve, estar aqui para dizer que nenhuma criança precisa ser massacrada física, moral e psicologicamente, em nome da justificativa absurdamente estupida de educação.

Recentemente eu escrevi dois textos, onde eu falo sobre o respeito a criança, e a intolerância da sociedade á infância, foram eles:  “Deixa ele… É criança“e “Aqui em casa criança tem querer, e na sua?” os dois tiveram bastante repercussão, ocorreu  que eu fiquei muito triste com os comentários que esses textos receberam, é lamentável a maneira que muitas crianças estão sendo criadas. E esses pais não conseguem enxergar o caminho errado que estão percorrendo.

Por experiência própria eu sei que quando temos filhos, a maneira que fomos criados se faz muito presente na nossa memória,  e por mais que tentamos excluir essas memórias, volta e meia elas vem a tona, e quando a gente menos imagina nos pegamos fazendo com os nossos filhos o mesmo que foi feito com a gente. Incontáveis vezes o “Eu vou te arrebentar” veio até a minha boca e eu o engoli. Quantos “Fica quieto seu menino chato” desceram rasgando pela minha garganta. É amargo, o gosto é horrível e queimam no meu estômago, mas é muito mais dolorido as vezes que essas e outras frases horrendas escaparam, e saíram sem que eu tenha conseguido segurar. O desafio é grande, mas eu luto com todas as minhas forças. Meu filho é o melhor presente que eu poderia ter recebido nesse mundo. Essas palavas duras vindas de uma mãe, que para a criança é um ser perfeito e mais sábio do mundo, entram na cabecinha dele e não demora muito até que ele se olhe no espelho e enxergue “que menino chato”, “que menino bobo”. Na inocência que ele vivencia na infância se ver dessa maneira lhe trás dor e medo de ser abandonado pelo adulto que ele ama. E ele não sabe verbalizar isso, na verdade ele não entende esse sentimento, ele só sente que algo o fere, e isso dói.

Cabe a nós adultos que somos responsáveis por essa criança entender, e eu entendo que cada vez que eu grito com ele a única coisa que eu estou ensinando á ele é que quem ama grita. Na cabecinha dele ele associa que  “A mamãe me ama, a mamãe grita comigo, eu me sinto mal e me entristeço”  logo, sentir-se mal e se entristecer, faz parte do amor. De repente ele pode achar que ser tratado com gritos é normal, “se até a minha mãe que me ama mais que tudo grita comigo”, e dali a achar que outros tipos de violência também é normal é um pulinho.

Ser xingado, insultado e menosprezado é normal. De repente apanhar também é normal, tudo isso anda juntinho com o amor. Ele aprendeu na pele que é assim que funcionam as relações de amor. Que a vida é assim. Que o amor é assim, é desse jeitinho. E é dessa maneira que criamos adultos que vivem histórias de desvalorização, de tapas, de insultos, de abusos dentro de relacionamentos que supostamente deveriam ser amorosos.

Me desculpem, mas se você acredita que gritos, palmadas e humilhações  vão educar e proteger o seu filho, algo está errado. Isso só pode parecer lógico na cabeça de alguém com algum tipo de distúrbio ou na cabeça de alguém que recebeu a violência de berço, e que até hoje não conseguiu enxerga-la como tal. Um dia eu já fui uma dessas, eu sou parte dessa geração que foi criada dentro dessa lógica absurda onde é bonito falar “apanhei muito e não morri”. Pois é, eu também sobrevivi.

Mas partindo desse ponto, qual é o seu objetivo? criar uma sociedade de sobreviventes? Mais uma geração onde a maneira de se resolver as coisas é no grito, não deu certo desce a porrada, e se ainda assim não for o suficiente partimos para as armas de fogo?

Vou lhe ser bem sincera, se esse é o caminho que você escolheu eu torço de todo o coração que você se veja cada dia mais sozinha na sua caminhada. Enquanto eu vou continuar aqui na minha luta diária em tirar de onde eu não tive, mas eu me recuso a dar continuidade a esse ciclo vicioso de pequenas violências camufladas no educar. Eu estou sempre em busca de aprender o caminho, mas não faço da violência em nenhuma da suas apresentações o meu atalho.

E para aqueles que preferem achar que a ideia dessa reflexão é deixar que as nossas crianças  tornem-se mimadas, pequenos tiranos e que passem a mandar nos pais, eu tenho a leve desconfiança de que a falta de informação te levou a pensar que educar é algo próximo de adestramento. Sugiro que você pare e reflita, em algum lugar você se perdeu, ou de repente nunca se encontrou.

15 Replies to “O que o seu filho aprende quando você grita com ele.”

  1. Uau tbem penso assim, em meio a essa sociedade q visa criar os filhos para agradar os adultos, vejo toda inocência e pureza da infância sendo roubadas dessas crianças que se tornaram indivíduos sem tolerância, ou empatia.
    As vezes é difícil lidar com as curiosidades e persistência de uma criança. Mas quem cria com amor tem o respeito dos filhos.
    Amo ver inocência no meu filho de 5 anos, e tenho medo de ver esperteza e mentiras em uma criança dessa idade.

  2. Muito bom esse texto. Concordo em cada ponto. Tenho contato ainda hoje com esse tipo de violência, porem, tratada como “Estou educando pra não virar bandido” “Melhor eu bater hoje que a polícia bater amanhã” ou o oposto, pais tão permissivos que chegam a ser ausentes. Não há uma receita perfeita para criar um filho, mas vamos tentando …

  3. Perfeito o texto! Minha esposa e eu estamos gravidos e em breve nasce nossa primeira filha. Eu fiquei muito preocupado com a educacão que daria a ela. Passei a buscar algumas coisas e cheguei a criacão com apego e o respeito que ela prega à crianca. Nos encaixamos perfeitamente nesse modelo e vamos seguir seus ideais.

  4. Você e muito inteligente, escreve com o coração. Continue postando tudo aquilo que te faz bem, destes 28,000,000 mil seguidores quem sabe pelo menos 1% pensará antes de mal educar um filho.
    Orgulho de ser sua Irma.

  5. Também tive uma infância de gritos e vi muitas brigas entre meus pais e apanhei também e muitas vezes sem um bom motivo,muitas vezes apenas porque estava secando a louça e quebrei um copo. Doía meu coração quando ouvia palavras grosseiras, e quando apanhava sem motivos.
    Hoje tenho um bebê que está com 1 mês de vida, vou educa-lo na base da conversa, claro, se em algum momento ver q é necessário darei umas palmadinhas porque acho que as vezes torna- se necessário, como tive uma infância muito difícil em relação a esse assunto, eu também preciso me policiar muito para engolir as palavras, estou e sempre farei isso….

  6. Edilene Cerqueira says:

    Obrigada por nós trazer essa reflexão tão importante, em meio a tanta violência doméstica. É preciso educar diferente pra mudar isso. Não existem leis que nos protejam de nós mesmos! Quem educa os homens e mulheres que agridem? Eis nossa reflexão. Compartilho dos seus sentimentos.

  7. oí… o texto veio num momento muito difícil pra mim,sou mãe de dois meninos e trabalho fora e sou eu pra TD o pai e a mãe.Confesso que sim briguei pelas brigas e desobediência e falta de respeito por mim, e sim eu gritei porque não tinha mais forças pra conversar de boa e explicar que temos que estar juntos e ajudando.O texto é lindo e fez com que eu levasse uma porrada em cheio…. Obrigado e de alguma forma o texto foi importante e posso dizer que eu senti como se eu estivesse conversando na sua frente.

  8. Acho que sim, filhos tem q ser criado com limites, não e passando a mão na cabeça por Peninha que se cria um cidadão de bem, criei meu filho com regras e quando precisei dei sim umas palmadas e hoje não me arrependo, algumas pessoas me criticaram, e essas mesmas pessoas hoje passam perrengues com seus filhos adolescentes

  9. Acho que tudo depende do olhar de cada um. ….também passei por tudo isso, mas não precisei fazer nenhum tipo de acompanhamento psicológico, para me libertar dos traumas causados na minha infância. Também sou mãe, de dois meninos e graças a Deus, que não transfiro o que passei para eles. Claro que às vezes, me dá vontade de falar coisas que eu não devo mas engulo o que ia falar. Não vejo a educação que os meus pais me deram como algo ruim, pelo contrário, acho que dentro do possível, fizeram o que achavam ser melhor para mim, abraços.

  10. Tenho um filhinho de 2 anos e uma bebe de 1 mês. Moro com minha mãe e meus irmãos, um ainda criança de 9 anos . E quando junta meu irmão e meu filho , nossa falta me cair os cabelos , meu irmão fax muita bagunça . Eu não sou lá um poço de paciência e acabo gritando, chingando .
    Muitas vezes acabei chingando o meu pequeno por achar na obrigação de chingar pelo motivo de estar morando na casa da minha mãe e ela cobrar que eu o faça .
    Mas , depois de ler esse texto me veio a cabeça todas as vezes em que maltratei meu filho , ele é só uma criança , e nem sequer entende o porque de toda gritaria , briga etc.

    1. Estou passando por isso, moro no fundo da casa dos meus pais, e com eles e so grito e pancada que resolve sabe, minha filha de tres anos tadinha tem que ficar presa em cada pq na casa da vo se correr brigam com ela, ai acabo gritando e depois fico tao mal.
      Com esse texto entao, eu nao sei mais o que fazer, nao gosto, nao quero fazer minha filha passar por isso, mas qdo vejo ja foi, a unica coisa que ela quer e atençao e carinho, nao gritos… Eu amo tanto minha filha, e como me doi brigar com ela.

  11. Acredito que boa parte das agressões físicas e emocionais, são consequências da vida stressante dos pais. Muita ocupação, trabalho, estudo ou até mesmo o desemprego. São tantos problemas e dificuldades que as pessoas se tornam impacientes e intolerantes. Acabam despejando no ser mais sensível e frágil que são os filhos. Qualquer atitude, brincadeira ou algo que não consideramos correto, nos sentimos no direito de corrigir a nossa maneira. Muitas vezes agressiva, porque naquele momento estamos irritados, nervosos com outras coisas e pessoas. E todo esse estresse vai ser derramado em nossos pequeninos. Tive uma educação razoável, meus pais batiam quando fazíamos algo errado, mas não sempre. Via lágrimas e tristeza nos olhos da minha mãe quando me batia, ela acreditava que era preciso. Mas, quando ela só conversava me sentia muito melhor.
    Ela sempre me pede para não corrigir minha filha na hora da raiva. Acredito ser um bom conselho.

  12. Eu penso assim.
    Mas essa geração que foi criada com tanto amorrr é uma porcaria a maioria é bandido… pessoas que.tem tudo mesmo assim virá bandido…
    Tenho uma prima que foi criada na porrada na cara …. ela quer criar suas filhas diferente ,ta certo.
    Mas as meninas parece mãe dela grita com ela manda ela avó o avô calarem a boca.
    Difícil.
    Dava logo um soco.

  13. Eu também concordo com vc. Fui criada dessa maneira dos tapas e humilhações e até um certo tempo achei que se a pessoa me humilhava aquilo era normal. Há pouco tempo e principalmente depois que fiz terapia melhorei, mas ainda assim me acho uma pessoa insegura. Porém, meu filho a educação está sendo e será totalmente diferente.

  14. Minha filha tem um ano e quatro meses e muitas vezes quer fazer coisas que não devia e tento ensina-lá conversando,as vezes ela é teimosa até demais , entende que não pode fazer é o faz,não sei como fazer com ela,não quero educala com gritos nem tapas ,e bem complicado nessa idade

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